Texto do Dia:


“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo. Repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder”.

Caio Fernando Abreu

O primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental para os amores seguintes: quer esgotá-la. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer refletir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada. Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, não duvidar. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca. É um misto de “ainda bem que já acabou” e de “mas o que é isto? para onde é que foi?”…mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deunada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último. Afinal nem é por ser primeiro, nem é por ser amor. A força do primeiro amor vem de queimar, todas aquelas ilusões e esperanças, saudades pequenas e sentimentos, que nascem em nós com uma força exagerada e excessiva. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais inteligentes. Por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos.

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